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Caroline Gonçalves Todos os cases

Qulture.Rocks · Discovery, dados e HR Tech

O estudo de churn que virou aposta de produto

O churn estava subindo e ninguém tinha explicação estruturada, só hipótese solta. Conduzi o primeiro estudo de churn da empresa e o resultado virou a hipótese de crescimento do ano seguinte.

Meu papelDiscovery, análise estatística e hipótese de produto
O que estava em jogoA estratégia de produto de 2024 inteira
MétodoTeste qui-quadrado
Ninguém pediuPuxei o estudo por conta própria

Um produto vendido para um mês do ano

A Qulture.Rocks é uma plataforma de gestão de performance e cultura organizacional. O produto que mais vendia era a Avaliação de Desempenho, aplicada uma ou duas vezes por ano. Fora dessas janelas, boa parte dos clientes não tinha motivo forte para abrir a plataforma no dia a dia.

E era um período de aperto financeiro por causa da pandemia. Empresa cortando tudo que parecesse “nice to have”, e a gente precisando garantir que não fôssemos lidos assim.

Na virada para 2024, o churn estava subindo. Existiam várias teorias circulando e nenhuma tinha sido testada contra o dado. Decidi conduzir o primeiro estudo de churn da empresa.

O que o teste qui-quadrado mostrou

Rodei um teste qui-quadrado cruzando várias variáveis de comportamento do cliente contra o cancelamento.

O que esse teste faz, em português

Ele verifica se existe associação entre duas variáveis categóricas. No caso, entre o padrão de uso do cliente (só Avaliação de Desempenho contra vários produtos) e ter cancelado ou não. Compara o que foi observado com o que se esperaria se não houvesse relação nenhuma, para separar diferença real de coincidência da amostra.

O padrão apareceu claro: clientes que usavam apenas o produto de Avaliação de Desempenho, justamente o mais vendido, cancelavam com muito mais facilidade do que quem usava outros produtos junto.

E fazia sentido. Se a avaliação acontece uma ou duas vezes por ano, o cliente não tem razão nenhuma para continuar pagando nos outros dez meses.

Uso concentrado numa janela curta do ano
Pouca percepção de valor no resto do tempo
Vontade de cancelar na renovação

O que esse teste prova e o que ele não prova

Qui-quadrado estabelece associação, não causa. Ele mostra que os dois grupos cancelam em taxas diferentes o suficiente para não ser acaso, e não que o uso restrito seja o motivo do cancelamento.

Existem pelo menos duas explicações concorrentes que o teste sozinho não descarta. A primeira é causa invertida: cliente já decidido a sair para de explorar produto novo, então o uso restrito seria sintoma e não causa. A segunda é composição: quem contrata só a Avaliação tende a ser empresa menor e com contrato menor, e empresa menor cancela mais por conta própria, ainda mais em ano de corte de custo.

Tratei o achado como hipótese forte o suficiente para direcionar aposta de produto, e não como causa demonstrada. Era o que o dado disponível sustentava.

O segundo padrão, que eu não estava procurando

A mesma análise mostrou outra coisa: as empresas mais engajadas na plataforma eram aquelas em que a pessoa de RH responsável mantinha contato constante com a gente. Reunião frequente, dúvida ativa, acompanhamento próximo.

Isso era território de Customer Success. Levei o achado para o time, que estruturou um plano de puxar mais reunião de acompanhamento com as empresas menos engajadas. Achado bom não precisa ser seu. Só precisa chegar em quem consegue usar.

O que eu escolhi não fazer

A leitura fácil do resultado seria empurrar venda cruzada: se quem usa mais produtos cancela menos, então vender mais módulo resolve. Não segui por aí. Em ano de corte de custo, aumentar contrato é o pior momento possível para pedir mais orçamento, e isso trataria o sintoma sem tocar no motivo, que era a plataforma ficar vazia dez meses por ano.

A pergunta que eu escolhi foi outra: qual produto que a empresa já tem consegue sustentar uso o ano inteiro?

A aposta foi o PDI. Ele já nascia ligado à Avaliação de Desempenho, e diferente dela, faz sentido ser usado o ano todo.

Todo PDI podia nascer de uma avaliação, então não exigia venda nova nem mudança de contrato. E acompanhar o desenvolvimento de uma pessoa acontece o ano todo por natureza. Era o único produto do portfólio que resolvia a janela vazia sem cobrar nada a mais de um cliente já apertado.

O que eu fiz no produto

Comecei tirando fricção de quem já usava o PDI, em duas frentes.

  • Notificação em cada etapa

    Passei a avisar o usuário em cada etapa do plano, para manter o desenvolvimento vivo ao longo do ano e não só na época da avaliação.

  • Preencher de onde a pessoa já trabalha

    A mudança de maior potencial. Dar a opção de preencher o PDI direto do Slack, tirando o atrito de abrir mais uma plataforma separada. Se o problema era a pessoa não voltar, a solução não podia depender dela voltar.

O que eu faria diferente

Eu não fiquei tempo suficiente para ver o churn se mexer. Saí da empresa poucos meses depois de começar essa frente, e churn é métrica de resposta lenta: o efeito de uma mudança de engajamento só aparece no ciclo de renovação seguinte, que podia levar até um ano. Não tenho o número final, e prefiro dizer isso a sugerir que tenho.

O acompanhamento certo seria por coorte. Separar as empresas entre as que passaram a engajar mais com o PDI, medindo por frequência de preenchimento, uso das notificações e adoção do Slack, e as que mantiveram o padrão anterior. Olhar uso mês a mês como sinal antecipado, já que o churn só se confirma lá na frente. E cruzar com CS para ver se o grupo mais engajado renovava mais ou sinalizava menos intenção de sair nas conversas de acompanhamento.

E eu testaria a causa invertida. Bastava olhar a linha do tempo: o uso restrito aparecia desde o começo do contrato ou só nos meses anteriores ao cancelamento? Essa única checagem separaria sintoma de causa, e eu tinha o dado para fazer.

Gosto de pergunta que ninguém mandou responder.

Esse estudo não estava no meu escopo. Se o seu time tem uma dessas parada, me chama.