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Caroline Gonçalves Todos os cases

Tempo · Produto, IA e operação

Ninguém ia priorizar essa feature. Eu resolvi sozinha.

Baixo impacto no ponteiro, alto desgaste na operação. É o tipo de problema que fica invisível em qualquer priorização por métrica e trava trinta pessoas todo dia.

Meu papelPM, designer e builder, sozinha
O que estava em jogo~300 templates por semana em toda a operação
FerramentaLovable, construído do zero
Custo de engenhariaZero sprint consumida

O contexto

A Tempo organiza o dia a dia financeiro e de tarefas dos clientes por WhatsApp: pagamentos, compras, cotações, agendamentos. Quem atende são assistentes humanas, com apoio de IA.

Quando um pedido tinha várias opções para o cliente escolher, tipo produtos, cotações ou passagens, a assistente colava o link numa feature de templates e ela gerava um PDF com as opções.

Quando o link vinha de um site que permitia scraping, a técnica de extrair preço, imagem e descrição de uma página automaticamente, funcionava direto. O problema começava quando o site bloqueava isso, e bloqueava com frequência.

Um PDF que quase ninguém conseguia editar rápido

Com o scraping bloqueado, a assistente abria um editor de PDF genérico e montava o template do zero. Criar cada caixa de texto, colar a informação, escolher a fonte, posicionar tudo. Se o nome do produto fosse mais longo, o layout quebrava e ela reorganizava tudo de novo. Um template simples podia levar mais de 30 minutos só nesse trabalho braçal.

E o pior nem era o incômodo. Esse tempo saía da parte que importa para o cliente: pesquisar o produto certo, comparar opção, entender o que ele precisa. A assistente ficava presa formatando texto.

E olhando o roadmap, essa feature não era prioridade nenhuma. Melhorar o sistema antigo exigia bastante engenharia para uma funcionalidade que não movia nenhuma métrica que o time acompanhava de perto.

Baixo impacto no ponteiro, alto desgaste na operação. Esse tipo de problema nunca ganha uma priorização por métrica, e trava gente todo dia.

O que eu escolhi não fazer

Tinha duas saídas óbvias e eu descartei as duas.

A primeira era brigar por espaço na fila de engenharia. Eu perderia essa briga, e com razão: um time de 12 pessoas tem coisa melhor para fazer do que melhoria incremental numa feature que não move métrica.

A segunda era melhorar o sistema antigo. Também não. O problema estava no formato, e o formato era PDF. Consertar a montagem manual de um documento estático ainda entrega um documento estático.

Então joguei a feature fora e construí uma nova, por conta própria, no Lovable. A única dependência de engenharia foi pontual: pedir para um dev fazer o ícone da feature no Cockpit redirecionar direto para o meu app.

O preço dessa escolha: a manutenção virou minha. Quando aparecia bug depois do lançamento, era eu que entrava no código, corrigia e subia. Funciona enquanto eu estou aqui, e é uma dependência que a empresa assumiu junto comigo. Se fosse um sistema crítico, eu não teria feito assim.

De colar link e torcer para um construtor de verdade

A versão nova resolvia o caminho fácil e o difícil, e foi além do que a antiga fazia.

  • Layout automático

    O app reposiciona e redimensiona tudo sozinho, mesmo com texto grande. A assistente só preenche os dados. Nada de caixa de texto, fonte ou reorganização na mão.

  • Link ou preenchimento manual rápido

    Colar o link continua funcionando quando o site permite. Quando não permite, preencher na mão deixou de ser um castigo de meia hora.

  • Várias fotos por produto

    Basta colar o endereço de cada imagem e sai um carrossel completo em pouco tempo.

  • Campos personalizados

    Para cotação específica, tipo “esse lava-rápido tem X ou não?”, dá para criar um campo só daquela pergunta. O PDF antigo não tinha essa flexibilidade.

  • Importação por CSV em formato de tabela

    Para lista longa, como opções de voo, dá para colar um CSV e gerar o template em tabela, que é mais rápido de ler do que cartão.

E o resultado deixou de ser um PDF. Virou um link interativo: o cliente escolhe a opção ali mesmo, e a escolha volta sozinha para o WhatsApp da Tempo. A assistente já vê a decisão sem precisar perguntar de novo.

O que mudou para quem usava todo dia

Antes

  • PDF estático, sem interação do cliente
  • Layout montado na mão, caixa por caixa
  • Texto que não cabia obrigava refazer tudo
  • Mais de 30 minutos por template nos casos manuais
  • A escolha do cliente não voltava sozinha, alguém precisava checar e repassar
  • Sem campo customizado e sem modo tabela

Depois

  • Link interativo, o cliente escolhe direto
  • Layout se ajusta sozinho ao conteúdo
  • Preenchimento manual rápido quando precisa
  • Template pronto em menos de 3 minutos
  • A escolha volta sozinha para o WhatsApp da assistente
  • Campo personalizado por pedido e importação por CSV

Um problema pequeno no papel e grande em escala

Economizar tempo em um template parece pouco. Só que cada uma das 30 assistentes gerava uns 2 templates por dia, o que dá cerca de 300 templates por semana na operação inteira.

A conta, com as premissas na mesa

300 templates por semana, a 30 min cada≈ 150h/semana
300 templates por semana, a 3 min cada≈ 15h/semana
Redução estimada-90%
300/semtemplates gerados por semana em toda a operação
0sprints de engenharia consumidas para construir a feature
100%da feature antiga substituída, nada do formato velho sobrou

Onde essa conta é frágil

Os 30 minutos são o caso manual, quando o site bloqueava o scraping. Quando o link funcionava direto, o template saía rápido mesmo antes. Como eu não instrumentei a proporção entre os dois caminhos, aplicar 30 minutos aos 300 templates trata a conta como se todos fossem manuais, então as 150h por semana são um teto, não uma medição. O que eu tenho de firme é o teto do antes, o tempo do depois e o volume. A economia real está entre esses dois números e mais perto do teto quanto mais frequente fosse o bloqueio.

O que eu faria diferente

Eu não instrumentei quase nada. Sei quantos templates são criados e não sei quantos clientes abriram o link antes de decidir, nem quantas compras saíram dele, nem tenho comparador direto de antes e depois. É a mesma falha que eu cometi no case de pagamentos, e é a coisa que eu mais mudaria na minha própria rotina: subir tagueamento no mesmo dia em que a feature sobe.

Eu deveria ter medido os dois caminhos antes de construir. Uma semana contando quantos templates caíam no fluxo manual teria transformado o número acima de estimativa em medição, e teria custado quase nada.

O que eu tenho de mais forte aqui é qualitativo, e eu prefiro dizer isso do que inflar. A reclamação recorrente das assistentes sobre essa feature simplesmente parou, e apareceram elogios espontâneos nos canais internos. Isso é sinal, não prova.

Tem um problema desses aí parado?

Aquele que todo mundo sabe que existe e nunca ganha prioridade. Eu gosto desses.